terça-feira, 24 de novembro de 2015

Cinza

Existe o peso conhecido de tudo que se sabe vivo e
o dia está cinza como só aqui.
Mas não é o cinza deste dia que pesa, é a ideia de que os dias cinzas vão durar alguns meses
e também não é isso.

Há três crianças brincando no gramado
o gramado ensopado da noite, do dia, da chuva que não cessa
e as crianças
não estão nem ai.
Eu ando com três camadas de roupas e as crianças estão ensopados e rindo muito.

Há o plano de saúde que acaba logo depois de março
e
eu não sei se tenho dinheiro pra renovar.
Dia após dia espero
não precisar de um comprovante depois de março
por conta do trabalho ou
por demanda do Oficio de Imigração e
espero não ficar doente depois de março.
Espero que meus olhos me enganem e eu não
precise de óculos,
porque são caros
e porque quem poderia me ajudar a escolher um modelo bonito
esta em Portugal
ou em São Paulo.

Há tanta coisa em São Paulo,
há tanta musica em São Paulo e há crianças em São Paulo também,
crianças que brincam sem pensar que seus pais tem que dar uns pulos
pra pagar o aluguel.
Eu tenho trabalhado como uma mula sem ganhar um tostão e meu plano
de
saúde
vai
acabar
e talvez eu tenha que usar óculos.

A vida das crianças me inquieta e também não é nada disso,
(é muito complicado ser Áries com ascendente em Touro
o que salva é a lua em virgem
é o que disse o Henrique.
Ele estava enganado:
eu não tenho a lua em virgem)
o cinza, a conta bancaria, o zodíaco, as crianças. Não é nada disso.







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 Este texto foi escrito em Rennes, França, em um novembro e a foto é do lugar que primeiro me disse "seja bem vindo, Pedro" quando aqui cheguei. O resto é apenas literatura.