quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Prefácio de "A Contract With God Trilogy" de Will Eisner

Bem, depois de um ano de desatualizações, segue um post novo como o vento sul ao final de março. Esta é uma aventura linguística e, ao mesmo tempo, quadrinística: a tradução do prefácio da trilogia "The contract with god". Acontece que deus escreveu um prefácio tão maravilhoso que resolvi traduzir. Espero que seja suficientemente claro.



Este livro contém histórias tiradas do fluxo infinito de personagens fortuitos da vida na cidade. Alguns podem ser verdade.

Nascido e criado na cidade de Nova York e tendo sobrevivido e prosperado lá, carrego  comigo uma carga de memórias, umas dolorosas e umas prazerosas, que permaneceram trancadas na fortaleza da minha mente. Tenho a velha necessidade dos marinheiros de compartilhar meu acúmulo de experiências e observações. Me chame, se quiser, uma testemunha gráfica descrevendo a vida, morte, batida de coração e a luta sem fim para prevalecer... ou pelo menos sobreviver.

Em 1978, encorajado pelos trabalhos dos artistas gráficos experimentalistas Otto Nückel, Franz Masareel e Lynd Ward, que nos anos 30 publicaram densas novelas contadas em arte sem texto, tentei um grande trabalho no mesmo formato. Em um esforço inútil de atrair o apoio de editores consagrados, chamei de “graphic novel”[i]. Era uma coleção de quatro histórias relacionadas, retiradas da memória, que ocorriam em um mesmo cortiço[ii] no Bronx. O título do livro, nomeado pela primeira história, foi Um Contrato com Deus. Apesar de nenhum grande editor querer tocar nela na época, a novela continuou a ser impressa por vinte e sete anos, e foi publicada em onze línguas diferentes. Segui esse esforço com outras graphic novels construídas mais ambiciosamente. Duas delas, intimamente ligadas à luta pela sobrevivência no ambiente urbano, estão incluídas em Um Contrato com Deus nessa trilogia. Todas são centradas em uma única rua no bairro do Bronx, Nova York. A rua é a Avenida Dropsie, uma caricatura de uma vizinhança que é apesar de tudo muito real para mim.

Enquanto a história se desenrola, no nº 55 da Avenida Dropsie é onde Frimme Hersch lida com Deus; onde o cantor da rua falha em agarrar sua chance de glória. É na Avenida Dropsie onde um inimigo mínimo derrota o zelador e Willie amadurece. É em um beco na Avenida Dropsie que Jacob Shtarkan tenta encontrar o sentido da vida. Também é na avenida Dropsie, finalmente, onde eu levo a cabo a biografia da rua propriamente, pela evolução física do quarteirão, a ascensão e queda do cortiço no nº 55 e as mudanças étnicas e sociais de seu elenco de ocupantes.

O cortiço – o nome deriva de um termo legal do século XV para diferentes habitações – sempre me parece como “um navio flutuando no concreto”. Afinal, o edifício não levou seus passageiros por uma viagem pela vida? O nº 55 está na esquina da Avenida Dropsie próximo ao trem elevado, ou o elevado, como chamamos hoje em dia. Era um tesouro de casa de histórias que ilustravam a vida no cortiço como eu me lembro, histórias que precisavam ser contadas antes que desaparecessem da memória. Com seus “apartamentos em trilho de trem”, com cômodos lado a lado como um trem, viviam mal pagos empregados da cidade ou trabalhadores e suas famílias turbulentas. Muitos eram imigrantes recentes, buscando sua própria sobrevivência. Eles se mantinham ocupados criando seus filhos e sonhando com a vida melhor que sabiam que existia na “cidade alta”. Corredores eram preenchidos com um rico aroma de ensopado sendo cozido, sons de discussão, e pequenos lamentos de vitrola. Que espírito de comunidade tem tronco na hostilidade comum do moradores com o senhorio ou seu superintendente substituto. Tipicamente, os moradores do prédio vinham e iam regularmente, dependendo das oscilações de sua sorte. Mas muitos ficavam por toda a vida, presos por pobreza ou velhice. Entre suas paredes, grandes dramas encenavam-se. Não havia nenhuma privacidade ou anonimato real. Todos sabiam sobre todos. Dramas humanos, bons e ruins, instantaneamente ganhavam testemunhas como formigas em volta de um pedaço de comida derrubada. De janela a janela ou nos degraus abaixo, os moradores analisavam, avaliavam e criticavam cada acontecimento, seguindo uma admissão obrigatória de que não era realmente problema seu.

“Um Contrato com Deus”, a primeira parte deste livro, examina os assuntos da relação dos homens com seu Deus. Essa preocupação humana muito básica nasce do conceito primordial pela sobrevivência. Somos ensinados desde cedo de que Deus irá ou nos punir ou recompensar, dependendo do nosso comportamento, conforme um contrato. Sacerdotes nos dão os termos, mandatos e condições, e  nossos pais fazem cumprir esse contrato.

A criação dessa história foi um exercício em agonia pessoal. Minha única filha, Alice, havia morrido de leucemia oito anos antes da publicação desse livro. Meu pesar ainda estava cru. Meu coração ainda sangrava. Na verdade, eu ainda não podia me fazer discutir a perda. Fiz a filha de Frimme Hersh uma “filha adotiva”. Mas sua agonia era minha. Sua discussão com Deus também era minha. Exorcizei minha raiva para com um credo que acreditava ter violado minha fé e privou minha amada filha de 16 anos de sua vida na flor da idade. Essa é a primeira vez em trinta e quatro anos que eu discuti isso abertamente.

“O Cantor das Ruas”, que aparece como a segunda vinheta no Um  Contrato com Deus original, era uma criatura dos anos da Depressão. Esses eram tempos desesperados em que nenhum modo de ganhar dinheiro era censurável. Os cantores de rua eram homens que apareciam no estreito espaço entre os cortiços para oferecer concertos de improviso. Quando garoto, eu costumava jogar uns trocados no nosso beco dos fundos  para o homem que aparecia regularmente lá para cantar, numa voz encharcada de vinho, músicas populares ou árias fora de moda. As mães pareciam encantadas com esses trovadores românticos. Pais tinham certeza que eram espiões para um roubo, e os moleques malvados as vezes jogavam um botão enrolado em papel para ver o quão bravo o homem ficaria quando abrisse. Para mim, no entanto, ele trazia um pouco de glamour teatral para o beco sombrio. O mistério de quem ele era permaneceu comigo durante anos. Finalmente, com esse livro sobre a vida no cortiço, pude imortalizar sua história.

“O Zelador” é uma história construída envolta do misterioso mas ameaçador guardião do apartamento no Bronx onde eu vivi quando garoto. Já que nunca tivemos contato ou nem mesmo conhecíamos o senhorio, o superintendente era a pessoa com quem lidávamos nas questões habitacionais do dia a dia. Ele morava no porão, era solteiro, e parecia permanentemente carrancudo, provavelmente por que era constantemente incomodado por moradores que exigiam reparos, melhor aquecimento no inverno, ou reclamavam pela manutnção pobre. Geralmente, o zelador era temido e evitado, e culpado por qualquer acontecimento não usual, real ou imaginário.

“Cookalein[iii]”, a última história no primeiro livro, é uma palavra Ídiche-Inglesa, que significa “cozinhe sozinho”. Ela descreve um resort de verão numa fazenda onde os hospedes cozinhavam sua própria comida.  A cada verão, nas Montanhas CatsKill cerca de 240 km da Cidade de Nova York, não longe dos resorts de mais alta classe, fazendeiros faziam algum dinheiro extra abrindo suas fazendas para veranistas. Muitas fazendas construíam pequenos “bangalôs”, precursores dos motéis dos anos 40, nas suas propriedades. Eles abriam suas cozinhas na “casa principal” para mães prepararem a comida para suas famílias. Um aluguel era muito barato. Nenhum serviço de empregada ou comida era incluso, e os hospedes traziam sua própria roupa de cama. A viagem ao campo era uma experiência bem vinda, particularmente para os jovens, que tinham a chance de ajudar nas tarefas da fazenda, acompanhar o desenvolvimento da vida animal, beber leite das tetas das vacas e, principalmente, aproveitar a liberdade de viver longe do ambiente quase prisão da cidade. Na rápida exposição a uma atmosfera bucólica  um jovem rapaz, no meio do drama da vida dos pais, poderia ter seu primeiro romance e uma primeira experiência sexual – um evento etéreo – no ar limpo e saudável de uma fazenda na montanha. O glamour e excitação, que vinham dos grandes hotéis apenas alguns quilômetros de distancia, acrescentavam à teatralidade das férias de verão. “Cookalein” é uma combinação de invenção e lembrança. É um relato honesto da minha maturidade vindoura.

Em 1983, cinco anos depois da publicação da primeira novela,  comecei a trabalhar no “Uma Força Vital”, situando essa graphic novel no mesmo endereço de “Um Contrato com Deus”. O debate entre Darwinismo e Criacionismo continuou através das décadas, mas o sentido da vida continua cientificamente sem resposta. Uma coisa é lidar com Como viemos para cá. É outra lidar com Porque. Eu comecei a trabalhar nesse livro depois do meu aniversário de 65 anos, uma marca que parecia ter chegado muito cedo. Para alguém que sempre se sentiu pego em uma luta mortal com o tempo e que ainda tem um número enorme de projetos a frente, esse foi um evento sério. De repente, suportar memórias que eram acumulações de detritos de viver parecia efêmero.

Medimos o tempo em uma razão baseada em quanto tempo vivemos. Obviamente, aos 65, um ano parece mais efêmero: é 1/65 de uma vida. Quanto mais eu ruminava nisso, mais difícil era acalmar minha preocupação com isso. O único modo de lidar com esse pensamento era me dirigir para frente. Para mim, isso seria escrever uma novela sobre o envelhecimento, um tema que tinha certeza que todos devem encontrar cedo ou tarde. Na época, o meio gráfico era muito novo para esse tipo de sondagem.  Mas a narrativa gráfica é uma linguagem que pode oferecer metáforas visuais apropriadas a um tema tão pesado. Para os jovens indiferentes, prometo que essa história vai estar esperando vocês quando atingiram sessenta e cinco anos.

Por estar lidando com uma questão pessoal, fiz Jacob Shtarkah, o protagonista de Uma Força Vital, eu disfarçado, um personagem através do qual eu poderia atuar na história. E enquanto nenhum dos eventos na vida de Jacob aconteceu na minha, eles foram desenhados de histórias da vizinhança que eu poderia intencionalmente apresentar como exemplo. Durante minha formação na cidade, minha família mudou-se de bairro para bairro, cada vez para um ambiente étnico diferente. Para reafirmar a realidade, situei os eventos durante a Grande Depressão – uma época quando a vida e a sobrevivência eram mais marginais e precárias, ainda que a razão para disso tudo parecessem mais inatingíveis do que nunca. E enquanto Jacob é um substituto ficcional de meu eu maduro, o personagem Willie, junto com sua contraparte em “Cookalein”, representa diretamente meu eu jovem. As histórias de Willie nos dois momentos são essencialmente autobiográficas.

Em 1995 eu não pude me conter e voltei novamente[iv] ao meu cenário familiar com Avenida Dropsie: A vizinhança, o terceiro elemento dessa trilogia. Para qualquer um crescendo numa grande cidade, a vizinhança imediata se torna o mundo. A rua onde alguém vive fornece uma criança com identificação local de algum modo parecida a ser marcado pela origem nacional. Ruas tem um status. Elas crescem, envelhecem e mudam de caráter. Em grandes cidades costeiras, a imigração tem um efeito no perfil de uma rua, alterando-a a cada grupo novo que entra, fica um pouco, assimila e depois de muda. Ruas parecem ter uma vida discernível. Algumas começam ostentosas e gradualmente decaem até favelas, enquanto outras começam como vizinhanças pobres e desconceituadas e ascendem à ostentação através do que urbanistas chamam enobrecimento. Avenida Dropsie, esse cenário fictício onde meu passado e minha imaginação colidem, tem uma história similar a ruas reais do Bronx. Como seus habitantes, tem uma existência turbulenta mas um instinto para sobrevivência. Avenida Dropsie é uma história de vida, morte e ressurreição.

Eu tive uma longa carreira – medindo oito décadas – combinando e refinando palavras e imagens. Meu trabalho inicial em tiras de jornal e quadrinhos me permitiram entreter milhões de leitores semanalmente, mas eu sempre senti que havia mais a dizer. Fui pioneiro no uso de quadrinhos para manuais de instrução para soldados Americanos, cobrindo três grandes guerras, e depois usei quadrinhos para educar crianças nas escolas. Ambos foram responsabilidades inebriantes que tomei muito seriamente. Mas eu ansiava fazer ainda mais com o meio. Em uma idade em que eu poderia ter “descansado”, escolhi ao invés criar quadrinhos literários, então um termo decididamente paradoxal. Aceitação não foi sempre fácil, mas eu vi ela surgir na minha vida. Tem sido muito gratificante ver as graphic novels e muitos de seus criadores excepcionais tornarem-se gradualmente uma parte aceita no mundo dos livros. Eu não pude encontrar uma grande editora para tomar Um Contrato com Deus apenas um quarto de século atrás, e agora graphic novels representam o gênero de crescimento mais rápido na indústria de livros.

As três graphic novels agrupadas aqui representam uma parte vital de meu oeuvre[v]. Me traz grande satisfação que elas alcancem agora uma nova geração de leitores.
Will Eisner
Tamarac, Florida
Dezembro de 2004




[i] Optei por utilizar a expressão original por seu uso majoritário em inglês.
[ii] O original é tenement, expressão pouco usual para “conjunto habitacional”. Optei pela palavra cortiço pois, no Brasil, a idéia de “conjunto habitacional” está ligada a moradias populares financiadas ou construídas pelo governo. As habitações descritas nas três graphic novels são o típico cortiço, sem ter havido apoio ou financiamento do Estado para sua existência. Lembram bastante o cortio descrito por Aluísio Azevedo no livro de mesmo nome.
[iii] Preferí não traduzir esse termo porque qualquer tradução seria um exercício de pura criatividade, sem qualquer base linguística. Não vejo sentido traduzir um termo derivado da interação entre duas línguas que não tem relação ou semelhança em português.
[iv] Mantive a redundância do original (I returned again).
[v] Mantive o original em francês. Oeuvre = trabalho

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